quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Sociedade da Informação e Educação (Vladimir de Paula Brito)

Introdução

A dinâmica da dita sociedade global baseia-se na concentração de rendas e oportunidades, e, caso construam instrumentos para modificar a dinâmica atual, a exclusão, infelizmente, só tende a aumentar.
A Escola constitui-se como um ambiente natural para propiciar às coletividades instrumentos de inserção social, em uma sociedade cada vez mais repleta de condicionantes e exigências para quem deseja adentra-la. Além disso, quando o acesso à informação deixa de ser “supérfluo” para as necessidades da economia de mercado, ter acesso à informação significa a diferença entre a miséria e a prosperidade.
Mas não cabe à Escola responder às demandas de qualificação de uma sociedade excludente, como se um mar de oportunidades fosse surgir caso a sociedade fosse extremamente qualificada. Cabe à Escola um papel mais profundo, cabe-lhe questionar as regras do jogo. Formar um cidadão é formar a capacidade de questionamento, de auto-aprendizado, de julgamento.
A Escola se configura como um importante instrumento de inclusão social, no sentido da formação e instrumentalização para uma sociedade que exige o desenvolvimento de capacidades para um mercado de trabalho “informacional”, mas, sobretudo, como fomentadora de contradição e espaço de formação da criticidade , tão fundamentais às transformações sociais.

Economia: do colonialismo ao neocolonialismo
É esse processo produtivo de constante investimento e constante necessidade de ampliação de mercados que pode explicar a conquista e mapeamento de todo o globo terrestre em relativamente pouco tempo de economia capitalista, afinal a necessidade de novos mercados é uma constante do capital.
Uma vez os mercados mundiais totalmente ocupados, o sistema capitalista gestou dois grandes mecanismos para lidar com suas crises de superprodução- a guerra e a recessão econômica- sendo o objetivo perseguido por ambos os mecanismos a destruição de forças produtivas para posterior reconstrução. Resumindo, já o tamanho do Globo é imutável e a capacidade de consumo das pessoas limitada, o capitalismo tem que aumentar a produção sempre, ou se toma o mercado alheio ou se destrói e reconstrói sua própria economia ou a de outrem.
Como a perspectiva de recessão econômica é mais ingrata ao capitalismo, pois pode perder sua empresa conforme o tamanho da crise, o instrumento mais atraente nos primórdios da economia de mercado era a utilização da guerra.
A economia capitalista encontrava-se numa encruzilhada. A guerra, como mecanismo de resolução de crises, tinha o emprego limitado pela era atômica. Um terço da economia do Globo era socialista, e o restante dos mercados já se encontrava novamente ocupado. Os mecanismos que surgiriam para lidar com essas questões seriam conhecidos como neoliberalismo e globalização econômica, tendo como ferramenta valiosa a tecnologia da informação. O objetivo: a recolonização dos países de terceiro mundo, só que desta vez menos pela via militar e mais pela via econômica.
Referente à globalização econômica e o neoliberalismo, é importante que verifiquemos um aspecto fundamental à globalização, que são as questões pertinentes ao capital financeiro, sua origem e mecanismos de funcionamento. A medida que o capital financeiro nasce associado à economia capitalista e posteriormente adquire uma dimensão tal que passa a nortear o desenvolvimento dessa economia, podemos pontuar que a questão da especulação financeira pode ser considerada como um dos principais sustentáculos da dita economia global.

Capital financeiro e especulativo
O surgimento do capital financeiro parte da seguinte lógica econômica: a produção gera lucros ao capitalista; enquanto uma parte do lucro geralmente é reivestida na produção, uma outra é realizada ou seja, o capitalista a toma para si e para seu bem estar.

Neoliberalismo, globalização e recolonização
Esses conceitos faziam parte do liberalismo e vêm do período mais selvagem do capitalismo, em que praticamente não existiam garantias ao trabalho, vivendo-se em regime de superexploração econômica. Salta aos olhos que, em economias estagnadas do primeiro mundo, o agora “neo ou novo “liberalismo” foi uma justificativa teórica para a transferências dos nichos mercadológicos administrados pelo Estado para a iniciativa privada, além da intervenção econômica nos mercados de outros países, com a desculpa da promoção do “livre comércio”. Outro aspecto relevante do neoliberalismo é que ele preconiza a total abertura das economias para o capital.
Com esse fenômeno, empresas passam também a deslocar –se constantemente pelo Globo, em busca de condições produtivas mais vantajosas, como a redução do custo de mão de obra ou da matéria- prima. No marco de uma disputa econômica cada vez mais global, cuja velocidade dos processos é enorme, a informação passa a ser um instrumento basilar na busca pelo lucro, e as ferramentas que ajudam a fazer trafegar a informação, como a internet, adquirem um novo valor econômico.

Sociedade da informação
A nova importância econômica da informação
A informação passa a ser um conceito chave no processo produtivo global. São as redes de informação que permitem o fluxo incontrolável de capitais pelo Globo. São as redes de informação que possibilitam a elaboração de projetos com especialistas dos quatros contos do mundo.
Para as empresas e para o capital, em tempos de economia global, o uso da informação é considerado como a mola mestra da competitividade, que é o motor da disputa de mercado. Aquelas empresas que não fizerem uso intensivo da tecnologia da informação, quase que certamente correm o risco de perder mercado e até de desaparecer.

Impactos Sociais: uma catástrofe anunciada
Com o aprofundamento dos processos econômicos capitalistas, materializados na globalização e na “sociedade da informação”, mais uma vez constatamos um processo de deslocamento de poder. Assim como a terra constituía fonte de poder em uma sociedade informacional. Os países, empresas ou pessoas que tiverem a capacidade de obter, produzir, armazenar e trabalhar a informação possuem mecanismos chave para a construção da hegemonia econômica em uma sociedade informacional.
Aqueles países, empresas ou pessoas que não souberem ou não adquirirem mecanismos para lidar com a informação certamente terão um papel econômico cada vez mais subalterno, arcando com as conseqüências sociais que possam advir disso.
Globalização, trabalho e educação
Ao mesmo tempo em que necessita de trabalhadores mais qualificados, o capital também necessita de construir justificativas mais palatáveis para a exclusão social. Em geral, as justificativas têm recaído principalmente sobre a Escola e a educação. Vende-se para o imaginário popular a educação técnica, como saída para os problemas de empregabilidade. Em um sistema econômico pautado pelo desemprego e subemprego, as pessoas são levadas a acreditar que elas são as principais responsáveis pelo seu próprio desemprego. É como se o modelo econômico adotado, privilegiando os países ricos em detrimento dos pobres, não fosse determinante em relação às possibilidades econômicas das pessoas e das nações. O capital institui, a partir da Escola, o darwinismo social, os melhores serão recompensados pelo mercado enquanto os piores deverão se contentar com a miséria, afinal são incompetentes.

Escola enquanto instrumento de transformação
Ao contrário de perpetuar esta lógica invertida, em que as vítimas da exclusão são postas pelo capital como as responsáveis pela sua própria exclusão, cabe à Escola ajudar a construir os questionamentos e indagações que se fazem necessários. Ao ter acesso ao livre pensamento, a história, a política, a produção cultural local e/ ou global, o indivíduo passa a ter elementos para questionar o futuro que pode esperar uma grande parte da população. Um futuro em que, nos moldes neoliberais, por mais que se venda um mundo dos sonhos informacionais, a muitos reserva o subemprego.

Possibilidades, por enquanto, possibilidades
A Escola, ao se descolar do viés tecnicista e profissionalizante, pode fazer das tecnologias digitais instrumentos que possibilitem grandes transformações nas relações de ensino e aprendizagem. Numa rede com uma infinidade de informações, como a Internet, as possibilidades de construção de conhecimento certamente são muito grandes, desde que as necessidades educacionais venham antes da indústria de informática e sua necessidade de vendas. O papel da educação em relação a sociedade da informação é pautada tanto pelas concepções vigentes de Escola para o trabalho quanto pela forma com que o computador entra na própria Escola.

Informação a serviço da Educação, e não o contrário
Dentro dessa lógica, muitas vezes a serviço das grandes empresas de informática, diga-se de passagem, distintos programas governamentais já despejaram milhares de computadores dentro das Escolas, como se a simples presença de ícones pós- modernos fossem suficientes para edificar a democratização da sociedade informacional. Infelizmente,com honrosas exceções, os computadores muito pouco contribuíram para qualquer processo de democratização e uso da informação. Constitui uma cena bastante comum, dentro de determinadas Escolas, laboratórios fechados, lotados de computadores à espera de algo, ou de alguém.
A forma com que a Sociedade da informação tem adentrado as escolas públicas até agora tem obedecido rigorosamente, mais uma vez, a uma lógica mercadológica. Que se vendam computadores, conexões à Internet e softwares proprietários. Como se vê, democratizar o acesso á informação, em que pese a pressão da indústria da informática, não significa somente comprar computadores, conexões e softwares.

Computador: a serviço de quem?
À medida que a Escola não tenha como concepção de relação com a comunidade a inclusão social e o combate ao analfabetismo, isso automaticamente irá refletir-se na forma de trabalhar a Informática e a informação. Aliás, é bastante comum Escolas geralmente particulares, construírem projetos de uso dos recursos informacionais disponíveis, mas esses pouco questionam a lógica da exclusão social. O computador entra em muitas dessas instituições escolares como mecanismo de diferenciação.
Uma Escola Pública que se coloque a serviço dos segmentos mais marginalizados da sociedade, que prime, portanto, pela construção da cidadania, que coloque a relação ensino e aprendizado a serviço de uma sociedade, e não de um mercado, certamente estará dando um primeiro passo para combater também a exclusão digital.

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