sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Prólogo: A rede e o ser

No fim do segundo milênio da Era crista, vários acontecimentos de importância histórica transformaram o cenário social da vida humana. Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado. Economias por todo o mundo passaram a manter interdependência global, apresentando uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade em um sistema de geometria variável. O colapso do estatismo soviético e o subsequente fim do movimento comunista internacional enfraqueceram, por enquanto o desafio histórico do capitalismo, salvaram as esquerdas políticas da atração fatal do marxismo-leninismo, decretaram o fim da guerra fria, reduziram o risco de holocausto nuclear e, fundamentalmente alteraram a geopolítica global. O próprio capitalismo passa por um processo de profunda reestruturação caracterizado por maior flexibilidade de gerenciamento: descentralização das empresas e sua organização em redes tanto internamente quanto em suas relações com outras empresas , considerável fortalecimento do papel do capital vis a vis o trabalho, com o declínio concomitante da influencia dos movimentos de trabalhadores, individualização e diversificação cada vez maior das relações de trabalho, incorporação maciça das mulheres na forca de trabalho remunerada, geralmente em condições discriminatórias, intervenção estatal para desregular os mercados de forma seletiva e desfazer o estado de bem-estar social com diferentes intensidades e orientações, dependendo da natureza das forcas e instituições políticas de cada sociedade, aumento da concorrência econômica global em um contexto de progressiva diferenciação dos cenários geográficos e culturais para a acumulação e a gestão de capital.
Simultaneamente as atividades criminosas e organizações ao estilo da máfia de todo o mundo se tornaram globais e informacionais, propiciando os meios para o encorajamento de hiperatividade mental e desejo proibido juntamente com toda e qualquer forma de negocio ilícito procurado por nossas sociedades, de armas sofisticadas à carne humana. Alem disso um novo sistema de comunicação que fala cada vez mais uma língua universal digital tanto esta promovendo a integração global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens de nossa cultura como personalizando-os ao gosto das identidades e humores dos indivíduos. As redes estão crescendo exponencialmente, criando novas formas de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela.
As mudanças sociais são tão drásticas quanto os processos de transformações tecnológicas e econômica. Os relacionamentos entre os sexos tornaram-se na maior parte do mundo, um domínio de disputas em vez de uma esfera de reprodução cultural.A consciência ambiental permeou as instituições da sociedade, e seus valores ganharam apelo político a preço de serem refutados e manipulados na pratica diária das empresas e burocracias. Os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais com objetivo único e efêmeros, encolhidos em seus mundos interiores ou brilhando por apenas um instante em um símbolo da mídia. Em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca da identidade, coletiva ou individual, atribuída ou construída, torna-se a fonte básica de significado social. No entanto a identidade esta se tornando a principal e, as vezes única forma de significados em um período histórico caracterizado pela ampla desestruturação das organizações, desligitimacao das instituições, enfraquecimento de importantes movimentos sociais e expressões culturais efêmeras. Enquanto isso as redes globais de intercambio instrumentais conectam e desconectam indivíduos, grupos, regiões e ate paises de acordo com sua pertinência na realização dos objetivos processados na rede, em um fluxo continuo de decisões estratégicas. Nossas sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a rede e o ser.
A tecnologia deve ser levada a serio utilizada como ponto de partida desta investigação:precisamos localizar o processo de transformação tecnológica revolucionaria no contexto social em que ele ocorre e pelo qual esta sendo moldado, e devemos nos lembrar de a busca da identidade e tão poderosa quanto a transformação econômica e tecnológica no registro da nova historia.

Tecnologia, sociedade e transformação histórica
A tecnologia não determina a sociedade.Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervem no processo de descoberta cientifica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Na verdade, o dilema do determinismo e, provavelmente, m problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.
Logo que se propagaram e foram apropriadas por diferentes paises, varias culturas, organizações diversas e diferentes objetivos, as novas tecnologias da informação explodiram em todos os tipos de aplicações e usos que, por sua vez, produziram inovação tecnológica, acelerando a velocidade e ampliando o escopo das transformações tecnológicas.
Entretanto, embora não determine a tecnologia, a sociedade pode sufocar seu desenvolvimento principalmente por intermédio do Estado. Ou então também, principalmente pela intervenção estatal, a sociedade pode entrar num processo acelerado de modernização tecnológica capaz de mudar o destino das economias, do poder militar e do bem-estar social em poucos anos. Sem duvida, a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem a tecnologia e, em especial, aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, traça seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedade, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico.Sob influencia estatal, o Japão tornou-se grande participante internacional nas industrias de tecnologia da informação, no ultimo quartel do século xx. É pertinente para as idéias aqui apresentadas, destacar que isso ocorreu ao mesmo tempo em que uma superpotência industrial e cientifica, a União Soviética, fracassou nessa importante transição tecnológica. O desenvolvimento tecnológico japonês desde a década de 1960 não ocorreu em um vácuo histórico, mas estava enraizado numa tradição de décadas de excelência em engenharia.Mas o que interessa para o objetivo desta analise é enfatizar os resultados totalmente diferentes obtidos pela intervenção estatal (e por sua falta) nos casos da China e da URSS em comparação ao Japão tanto no período Meiji como no período pos segunda guerra mundial. As características do estado japonês nas raízes dos processos de modernização e de desenvolvimento são bastante conhecidas. Tanto no caso da Ishin Meiji, quanto do estado desenvolvimentista contemporâneo, e alem disso sua apresentação nos afastaria muito do enfoque destas reflexões preliminares. O Que deve ser guardado para o entendimento da relação entre a tecnologia e a sociedade é que o papel do Estado seja interrompendo, seja promovendo, seja liderando a inovação tecnológica, é um fator decisivo no processo geral, à medida que expressa e organiza as forcas sociais dominantes em um espaço e uma época determinados. Em grande parte, a tecnologia expressa a habilidade de uma sociedade para impulsionar seu domínio tecnológico por intermédio das instruções sociais, inclusive o Estado. O processo histórico em que esse desenvolvimento de forcas produtivas ocorrem assinala as características da tecnologia e seus entrelaçamentos com as relações sociais.
Não é diferente no caso da revolução tecnológica atual. Ela originou-se e difundiu-se não por acaso, em um período histórico da reestruturação global do capitalismo, para o qual foi uma ferramenta básica. Portanto, a nova sociedade emergente desse processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente variação histórica considerável nos diferentes paises, conforme sua historia, cultura, instituições e relação especifica com o capitalismo global e a tecnologia informacional.

Informacionalismo, industrialismo, estatismo: modos de desenvolvimento e modos de produção

A revolução da tecnologia da informação foi essencial para a implementação de um importante processo de reestruturação do sistema capitalista a partir da década de 1980.O sistema alternativo de organização social presente em nosso período histórico, o estatismo também tentou redefinir os meios de consecução de
seus objetivos estruturais embora preservasse a essência desses objetivos: ou seja, o espírito da reestruturação (ou Perestroika, na Rússia). Contudo a tentativa do estatismo soviético fracassou a ponto de haver o colapso de todo o sistema, em grande parte, por razão da incapacidade de do estatismo para assimilar e usar os princípios do informacionalismo embutidos na nova tecnologia da informação. Aparentemente o estatismo chinês foi bem sucedido ao transformar-se numcapitalismo liderado pelo Estado e ao integrar-se nas redes econômicas globais, aproximando-se mais do modelo estatal desenvolvimentista do capitalismo do Leste Asiático que do socialismo com característica chinesas da ideologia oficial.Entretanto, é muito provável que o processo de transformação estrutural da China passara por importantes conflitos políticos e mudanças institucionais nos próximos anos. O colapso do estatismo (com raras exceções, por exemplo, Vietnã, Coréia do Norte, Cuba que, no entanto, estão em processo de conexão com o capitalismo global) estabeleceu uma relação estreita entre o novo sistema capitalista global, moldado por sua perestroyka relativamente bem-sucedida, e a emergência do informacionalismo como a nova base material, tecnológica, da atividade econômica e da organização social.
A perspectiva teórica que fundamenta essa abordagem postula que as sociedades são organizadas em processos estruturados por relações historicamente determinadas de produção, experiência e poder. Produção é a ação da humanidade sobre a matéria(natureza) para apropriar-se dela e transforma-la em seu beneficio, obtendo um produto, consumindo(de forma irregular) parte dele e acumulando o excedente para investimento conforme os vários objetivos socialmente determinados. Experiência é a ação dos sujeitos humanos sobre si mesmos, determinada pela interação entre as identidades biológicas e culturais desses sujeitos em relação a seus ambientes sociais e naturais. É construída pela eterna busca de satisfação das necessidades e desejos humanos. Poder é aquela relação entre os sujeitos humanos que com basena produção e na experiência, impõe a vontade de alguns sobre os outros pelo emprego potencial ou real de violência física ou simbólica. As instituições sociais são constituídas para impor o cumprimento das relações de poder existentes em cada período histórico, inclusive os controles, limites e contratos sociais conseguidos nas lutas pelo poder.
A comunicação simbólica entre os seres humanos e o relacionamento entre esses e a natureza com base na produção(e seu complemento,o consumo), experiência e poder, cristalizam-se ao longo da historia em territórios específicos, e assim geram culturas e identidades coletivas.
A produção é um processo social porque cada um de seus elementos é diferenciado internamente. Assim a humanidade como produtora coletiva inclui tanto o trabalho como os organizadores da produção, e o trabalho é muito diferenciado e estratificado de acordo com o papel de cada trabalhador no processo produtivo.
Apesar de serem organizadas em paradigmas oriundos das esferas dominantes das sociedades(por exemplo o processo produtivo, o complexo industrial militar), a tecnologia e as relações técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, penetrando no poder e na experiência e modificando-os.Dessa forma, os modos de desenvolvimentos modelam toda a esfera de comportamento social, inclusive a comunicação simbólica.Como informacionalismo baseia-se na tecnologia de conhecimentos e informação , há uma intima ligação entre cultura e forcas produtivas e entre espírito e matéria, no modo de desenvolvimento informacional.Portanto devemos esperar o surgimento de novas formas históricas de interação, controle e transformação social

O informacionalismo e a perestroyka capitalista
Passando de categorias teóricas para a transformação histórica, o que importa de fato aos processos e formas sociais que compõem a carne viva das sociedades é a interação real entre os modos de produção e os de desenvolvimento estabelecidos e defendidos pelos atores sociais, de formas imprevisíveis na infra-estrutura repressora da historia passada e nas condições atuais de desenvolvimento tecnológico e econômico. Assim, o mundo e as sociedades teriam sido muito diferentes se Gorbachov tivesse conseguido sucesso com sua própria perestroyka, meta política difícil, mas não impossível. Ou se a região do pacifico asiatico não tivesse sido capaz de unir sua forma tradicional de organização econômica em redes de empresas as ferramentas da tecnologia da informação. Entretanto o fator histórico mais decisivo para a aceleração, encaminhamento e formação do paradigma da tecnologia da informação para a introdução de suas conseqüentes formas sociais foi /é o processo de reestruturação capitalista empreendido desde os anos 80, de modo que o novo sistema econômico e tecnológico pode ser adequadamente caracterizado como capitalismo informacional.
Embora a reestruturação do capitalismo e a difusão do informacionalismo fossem processos inseparáveis em escala global, as sociedades agiram/reagiram a esses processos de forma diferentes, conforme a especificidade de seu historia, cultura e instituições.Conseqüentemente, ate certo ponto, seria impróprio referir-se a uma “Sociedade informacional,”o que implicara a homogeneidade das formas sociais em todos os lugares sob o novo sistema.
Portanto, todas as sociedades são afetadas pelo capitalismo e informacionalismo e muitas delas (certamente todas as sociedades importantes) já são informacionais, embora de tipos diferentes, em diferentes cenários e com expressões culturais/institucionais especificas. Uma teoria da sociedade informacional, diferente de uma economia global/informacional, devera esta sempre tão atenta a especificidade histórica/cultural quanto as semelhanças estruturais referentes a um paradigma econômico e tecnológico amplamente compartilhado.
O ser na sociedade informacional
As novas tecnologias da informação estão integrando o mundo em redes globais de instrumentalidade. A comunicação medida por computadores gera uma gama enorme de comunidades virtuais. Mas a tendência social e política característica da década de 1990 era a construção da ação social e das políticas em torno de identidades primarias- ou atribuídas,enraizada na historia e geografia, ou recém - construídas em uma busca ansiosa por significado e espiritualidade.Os primeiros passos históricos informacionais parecem caracteriza-la pela preeminência da identidade como seu próprio organizacional. Por identidade, entendo o processo pelo o qual o ator social se reconhece e constrói significado principalmente com base em determinado atributo cultural ou conjunto de atributos, a ponto de excluir uma referencia mais ampla a outras estruturas sociais. Afirmação de identidade não significa necessariamente incapacidade de relacionar-se com outras identidades(por exemplo, as mulheres ainda se relacionam com os homens), ou abarcar toda a sociedade sob essa identidade (por exemplo,o fundamentalismo religioso aspira converter todo mundo).Mas as relações sociais são definidas vis-a-vis as outras, com base nos atributos culturais que especificam a identidade.
A mudança histórica das tecnologias mecânicas para as tecnologias da informação ajuda a subverter as noções de soberania e auto- suficiência que serviam de ancora ideológica à identidade individual desde que os filósofos gregos elaboraram o conceito ha mais de dois milênios. Em resumo, a tecnologia esta ajudando a desfazer a visão do mundo por ela promovida no passado
Elementos de uma estrutura interpretativa para explicar o poder crescente da identidade também deve ser encontrados num nível mais amplo, relacionados aos macroprocessos de transformação institucional que estão ligados em grande medida, ao surgimento de um novo sistema global
O surgimento do fundamentalismo religioso também parece estar ligado tanto a uma tendência global como a uma crise institucional.Segundo a experiência histórica, sempre existiram idéias e crenças de todos os tipos à espera para eclodirem no momento certo.É significativo que o fundamentalismo quer islâmico quer cristão, tenha se difundido (e continuara a expandir-se) por todo o mundo no momento histórico em que as redes globais de riqueza e de poder conectam pontos nodais e valorizam os indivíduos em todo o planeta embora desconectem e excluam grandes segmentos das sociedades regiões e ate paises inteiros.

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