Sobre a divisão do trabalho
O desenvolvimento da produtividade do trabalho, e o aumento do engenho, destreza e discernimento ao qual está ligado, parece ter sido provocado pela divisão do trabalho. Nas fábricas rudimentares destinadas a prover às necessidades de um pequeno número de pessoas, a quantidade de trabalhadores é necessariamente muito diminuta e todos os que são empregados em cada um dos ramos de produção podem trabalhar num mesmo edifício e podem ser colocados à vista do observador. Nas grandes fábricas destinadas a abastecer as necessidades de um maior número de trabalhadores tão elevado que é impossível mantê-los a trabalhar numa única instalação. O observador poderá raramente ver, mais do que os empregados de um só ramo.
Um aumento proporcional da produtividade, a separação entre os diferentes ramos industriais e as tarefas necessárias em cada um deles parece ter surgido como conseqüência deste processo.
Aquilo que constitui o trabalho de um único homem num estado primitivo da sociedade passa a ser efetuado por diversos homens numa sociedade mais evoluída. O trabalho indispensável para fabricar completamente qualquer produto está quase sempre dividido por um grande número de operários.
A impossibilidade de realizar uma completa separação dos diferentes ramos de trabalho usados na agricultura é talvez a causa de o aumento da sua produtividade não ser tão grande como é na indústria.
O aumento de produção é proporcional à maior quantidade de trabalho e capital investidos.
O aumento de produção que, devido à divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas é capaz de realizar, é resultante de três circunstâncias diferentes: ao aumento da destreza de cada trabalhador; à economia de tempo, que antes era perdido ao passar de uma operação para outra; à invenção de um grande número de máquinas que facilitam o trabalho e reduzem o tempo indispensável para o realizar, permitindo a um só homem fazer o trabalho de muitos.
O desenvolvimento da destreza dos trabalhadores aumenta a quantidade de trabalho que eles podem realizar; e a divisão do mesmo, aumenta também a destreza dos trabalhadores.
A vantagem que decorre do melhor aproveitamento do tempo que normalmente se perderia ao passar de um tipo de trabalho para o outro é muito maior do que à primeira vista se poderia imaginar. Qualquer pessoa se dispersa um pouco ao passar de uma tarefa para outra. Quando inicia o novo trabalho é pouco hábil e vigoroso; até se habituar à nova tarefa, desperdiça o tempo em vez de o aplicar corretamente. A falta de atenção e a indolência no trabalho, que são natural ou adquirida por qualquer trabalhador rural obrigado a mudar de tarefa e de ferramentas de meia em meia hora, e aplicar o seu trabalho manual de vinte maneiras diferentes em quase todos os dias da sua vida, tornam-no preguiçoso e incapaz de uma vigorosa aplicação ao trabalho. Esta causa, reduz consideravelmente a quantidade de trabalho que ele é capaz de realizar.
O trabalho é facilitado e reduzido quando se usa uma maquinaria adaptada à tarefa que se realiza. Como conseqüência da divisão do trabalho, a atenção dos trabalhadores tende naturalmente a dirigir-se para um único objetivo. Encontrar métodos fáceis e simples de realizá-la, desde que a natureza desta admita esta simplificação. Uma grande parte das máquinas utilizadas nas fábricas em que o trabalho está muito subdividido foram originalmente inventadas pelos próprios trabalhadores, máquinas bastante interessantes com o objetivo de facilitar e tornar mais rápidas as suas tarefas .
Muitas modificações foram realizadas pelo engenho dos fabricantes de máquinas, ao transformarem a produção destas numa forma particular de negócio; e algumas outras pelos chamados filósofos ou homens de especulação filosófica, cuja atividade consiste não em fazer, mas sim em observar tudo o que os rodeia. A Filosofia ou a especulação filosófica torna-se a principal ou única ocupação de um tipo particular de cidadãos, está também subdividido num grande número de tarefas particulares, cada uma das quais é atribuída a um grupo ou classe particular de filósofos; e esta subdivisão do trabalho na filosofia, aumenta a destreza destes homens e permite economizar tempo. Cada indivíduo torna-se mais sabedor na sua tarefa particular, produzindo maior quantidade de trabalho, e as ciências e as artes são assim consideravelmente aperfeiçoadas e aumentadas.
É a grande multiplicação das produções das diferentes atividades humanas, originada pela divisão do trabalho, que cria, numa sociedade bem governada, a possibilidade de estender o bem estar até às camadas mais baixas do povo. Cada trabalhador fornece às outras pessoas aquilo de que elas necessitam e estas pagam-lhe do mesmo modo. Difunde-se assim em todas as camadas da sociedade uma abundância geral.
Sobre o princípio que deu origem à divisão do trabalho
Esta divisão do trabalho foi a conseqüência necessária, lenta e gradual, de uma determinada tendência da natureza humana que tem como objetivo uma utilidade menos extensiva: a tendência para negociar e trocar uma coisa por outra.
Quando um animal pretende obter qualquer coisa de um homem ou de um outro animal, tenta, como único meio possível de persuasão, ganhar os favores daquele de cujos serviços necessitam. O homem também usa por vezes as mesmas artimanhas com os seus semelhantes, e, quando não possui qualquer outro meio de levá-los a agirem de acordo com os seus anseios, tenta com servilismo obter os seus favores.
O homem necessita sempre da ajuda dos seus semelhantes e não pode esperar que estes lha dêem por mera bondade. Ser-lhe-á mais fácil consegui-la se puder explorar a seu favor o amor próprio dos outros e lhes puder demonstrar que têm vantagem em fazer por ele aquilo que lhes é pedido. É isto que acontece quando uma pessoa propõe a outra qualquer negócio. Dê-me o que quero, e terá aquilo que deseja. No seu próprio interesse compra, pela troca, por um acordo.
O contrato, a compra ou a troca nos permitem obter uns dos outros a maior parte dos serviços recíprocos de que necessitamos; foi ainda essa propensão para a troca que originalmente provocou a divisão do trabalho.
É, portanto, a certeza de poder trocar o excedente da sua produção, depois de satisfeita as suas necessidades, pelo excedente da produção dos outros homens que leva cada homem a dedicar-se a uma única tarefa e a desenvolver e aperfeiçoar qualquer talento ou habilidade que possua para um dado tipo de atividade.
A diferença entre as capacidades naturais dos diversos homens é, na realidade, muito menor do que aquilo que podemos pensar; e a grande disparidade entre os diversos talentos que parecem distinguir os homens das diversas profissões quando chegam à maturidade é normalmente muito menos uma causa do que um efeito da divisão do trabalho. Os hábitos e a educação que explicam a diferença existente entre os caracteres mais díspares entre um filósofo e um carregador.
Se não existisse em cada homem a tendência para a troca e para a compra, este ver-se-ia obrigado a produzir todas as coisas necessárias e úteis para a sua vida. Todos teriam os mesmos deveres e realizariam o mesmo trabalho; nessas condições, nunca poderia existir a enorme diferença de ocupações que, por si só, dá origem à diversidade das aptidões.
Entre os homens, mesmo os talentos mais díspares são úteis uns aos outros, isto porque os diferentes produtos das suas respectivas aptidões, devidos à tendência geral para trocar e comprar, passam a fazer parte de uma mesma reserva à qual todos os homens podem ir buscar tudo aquilo de que necessitam.
Bibliografia
SMITH, Adam. Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. David Ricardo; traduções de Conceição Jardim Maria do Carmo Cary, Eduardo Lúcio Nogueira, Rolf Kuntz. – 2. ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1979.
O desenvolvimento da produtividade do trabalho, e o aumento do engenho, destreza e discernimento ao qual está ligado, parece ter sido provocado pela divisão do trabalho. Nas fábricas rudimentares destinadas a prover às necessidades de um pequeno número de pessoas, a quantidade de trabalhadores é necessariamente muito diminuta e todos os que são empregados em cada um dos ramos de produção podem trabalhar num mesmo edifício e podem ser colocados à vista do observador. Nas grandes fábricas destinadas a abastecer as necessidades de um maior número de trabalhadores tão elevado que é impossível mantê-los a trabalhar numa única instalação. O observador poderá raramente ver, mais do que os empregados de um só ramo.
Um aumento proporcional da produtividade, a separação entre os diferentes ramos industriais e as tarefas necessárias em cada um deles parece ter surgido como conseqüência deste processo.
Aquilo que constitui o trabalho de um único homem num estado primitivo da sociedade passa a ser efetuado por diversos homens numa sociedade mais evoluída. O trabalho indispensável para fabricar completamente qualquer produto está quase sempre dividido por um grande número de operários.
A impossibilidade de realizar uma completa separação dos diferentes ramos de trabalho usados na agricultura é talvez a causa de o aumento da sua produtividade não ser tão grande como é na indústria.
O aumento de produção é proporcional à maior quantidade de trabalho e capital investidos.
O aumento de produção que, devido à divisão do trabalho, o mesmo número de pessoas é capaz de realizar, é resultante de três circunstâncias diferentes: ao aumento da destreza de cada trabalhador; à economia de tempo, que antes era perdido ao passar de uma operação para outra; à invenção de um grande número de máquinas que facilitam o trabalho e reduzem o tempo indispensável para o realizar, permitindo a um só homem fazer o trabalho de muitos.
O desenvolvimento da destreza dos trabalhadores aumenta a quantidade de trabalho que eles podem realizar; e a divisão do mesmo, aumenta também a destreza dos trabalhadores.
A vantagem que decorre do melhor aproveitamento do tempo que normalmente se perderia ao passar de um tipo de trabalho para o outro é muito maior do que à primeira vista se poderia imaginar. Qualquer pessoa se dispersa um pouco ao passar de uma tarefa para outra. Quando inicia o novo trabalho é pouco hábil e vigoroso; até se habituar à nova tarefa, desperdiça o tempo em vez de o aplicar corretamente. A falta de atenção e a indolência no trabalho, que são natural ou adquirida por qualquer trabalhador rural obrigado a mudar de tarefa e de ferramentas de meia em meia hora, e aplicar o seu trabalho manual de vinte maneiras diferentes em quase todos os dias da sua vida, tornam-no preguiçoso e incapaz de uma vigorosa aplicação ao trabalho. Esta causa, reduz consideravelmente a quantidade de trabalho que ele é capaz de realizar.
O trabalho é facilitado e reduzido quando se usa uma maquinaria adaptada à tarefa que se realiza. Como conseqüência da divisão do trabalho, a atenção dos trabalhadores tende naturalmente a dirigir-se para um único objetivo. Encontrar métodos fáceis e simples de realizá-la, desde que a natureza desta admita esta simplificação. Uma grande parte das máquinas utilizadas nas fábricas em que o trabalho está muito subdividido foram originalmente inventadas pelos próprios trabalhadores, máquinas bastante interessantes com o objetivo de facilitar e tornar mais rápidas as suas tarefas .
Muitas modificações foram realizadas pelo engenho dos fabricantes de máquinas, ao transformarem a produção destas numa forma particular de negócio; e algumas outras pelos chamados filósofos ou homens de especulação filosófica, cuja atividade consiste não em fazer, mas sim em observar tudo o que os rodeia. A Filosofia ou a especulação filosófica torna-se a principal ou única ocupação de um tipo particular de cidadãos, está também subdividido num grande número de tarefas particulares, cada uma das quais é atribuída a um grupo ou classe particular de filósofos; e esta subdivisão do trabalho na filosofia, aumenta a destreza destes homens e permite economizar tempo. Cada indivíduo torna-se mais sabedor na sua tarefa particular, produzindo maior quantidade de trabalho, e as ciências e as artes são assim consideravelmente aperfeiçoadas e aumentadas.
É a grande multiplicação das produções das diferentes atividades humanas, originada pela divisão do trabalho, que cria, numa sociedade bem governada, a possibilidade de estender o bem estar até às camadas mais baixas do povo. Cada trabalhador fornece às outras pessoas aquilo de que elas necessitam e estas pagam-lhe do mesmo modo. Difunde-se assim em todas as camadas da sociedade uma abundância geral.
Sobre o princípio que deu origem à divisão do trabalho
Esta divisão do trabalho foi a conseqüência necessária, lenta e gradual, de uma determinada tendência da natureza humana que tem como objetivo uma utilidade menos extensiva: a tendência para negociar e trocar uma coisa por outra.
Quando um animal pretende obter qualquer coisa de um homem ou de um outro animal, tenta, como único meio possível de persuasão, ganhar os favores daquele de cujos serviços necessitam. O homem também usa por vezes as mesmas artimanhas com os seus semelhantes, e, quando não possui qualquer outro meio de levá-los a agirem de acordo com os seus anseios, tenta com servilismo obter os seus favores.
O homem necessita sempre da ajuda dos seus semelhantes e não pode esperar que estes lha dêem por mera bondade. Ser-lhe-á mais fácil consegui-la se puder explorar a seu favor o amor próprio dos outros e lhes puder demonstrar que têm vantagem em fazer por ele aquilo que lhes é pedido. É isto que acontece quando uma pessoa propõe a outra qualquer negócio. Dê-me o que quero, e terá aquilo que deseja. No seu próprio interesse compra, pela troca, por um acordo.
O contrato, a compra ou a troca nos permitem obter uns dos outros a maior parte dos serviços recíprocos de que necessitamos; foi ainda essa propensão para a troca que originalmente provocou a divisão do trabalho.
É, portanto, a certeza de poder trocar o excedente da sua produção, depois de satisfeita as suas necessidades, pelo excedente da produção dos outros homens que leva cada homem a dedicar-se a uma única tarefa e a desenvolver e aperfeiçoar qualquer talento ou habilidade que possua para um dado tipo de atividade.
A diferença entre as capacidades naturais dos diversos homens é, na realidade, muito menor do que aquilo que podemos pensar; e a grande disparidade entre os diversos talentos que parecem distinguir os homens das diversas profissões quando chegam à maturidade é normalmente muito menos uma causa do que um efeito da divisão do trabalho. Os hábitos e a educação que explicam a diferença existente entre os caracteres mais díspares entre um filósofo e um carregador.
Se não existisse em cada homem a tendência para a troca e para a compra, este ver-se-ia obrigado a produzir todas as coisas necessárias e úteis para a sua vida. Todos teriam os mesmos deveres e realizariam o mesmo trabalho; nessas condições, nunca poderia existir a enorme diferença de ocupações que, por si só, dá origem à diversidade das aptidões.
Entre os homens, mesmo os talentos mais díspares são úteis uns aos outros, isto porque os diferentes produtos das suas respectivas aptidões, devidos à tendência geral para trocar e comprar, passam a fazer parte de uma mesma reserva à qual todos os homens podem ir buscar tudo aquilo de que necessitam.
Bibliografia
SMITH, Adam. Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. David Ricardo; traduções de Conceição Jardim Maria do Carmo Cary, Eduardo Lúcio Nogueira, Rolf Kuntz. – 2. ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1979.
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